O peso da mochila

Profª. Roseli Moraes *, em entrevista a J.R.Jerônimo.

 16.04.2011

Diversos problemas de coluna são causados pelo excesso de peso das mochilas

 

Dor na coluna tornou-se um problema de saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 85% das pessoas têm, tiveram ou terão um dia dores provocadas por problemas de coluna. Em boa parte desse contingente, essas dores têm origem na infância.

 

Médicos indicam que o peso da mochila deve ser, no máximo, 10% do peso da criança e para crianças menores, no máximo em 5%.  Mas essa não é uma realidade entre os escolares da rede pública e particular de ensino no Brasil.  O excesso de peso nas mochilas é um problema grave, que leva a criança e o adolescente a um estresse muscular, por fazerem um esforço maior do que poderiam suportar, o que, além de dores nas costas, também podem causar alterações posturais como escolioses - inclinação lateral da coluna vertebral -, hipercifose ou dorso curvo e hiperlordose, dependendo da forma com que se carrega e do tipo de mochila escolhido.  

 

 

 

Profª. Roseli, quais modelos de mochila devem ser evitados e quais os que devem ser preferidos, em razão da melhor contribuição à integridade da coluna?

 

Profª. Roseli

Em primeiro lugar, a mochila deve ser comprada sempre na presença da criança, pois o tamanho deve ser ideal para cada criança.  Ou seja, seu tamanho não pode ultrapassar a cintura, deve ser colocada nas costas e os pais observarem alguns pontos - possuir duas alças acolchoadas que diminuem a pressão sobre os ombros, as quais devem ser largas, mas que não ultrapassem o tamanho do ombro e sejam reguláveis.  O ideal é que possua amortecedores para a região dorsal, diminuindo o impacto do material carregado e cinto abdominal que se ajuste na frente, mantendo a mochila bem junto ao corpo, ajudando a diminuir assim a tensão na coluna.  Os bolsos devem ser bem distribuídos, mas que se evite muitos bolsos, pois favorecem também levar mais objetos desnecessários. Evite as que já são pesadas mesmo vazias e muito grandes. Além do modelo ideal, elas devem ser perfeitamente ajustadas, o material bem distribuído, com os objetos mais pesados na parte central por exemplo.

 

 

Mochila de rodinhas pode ser indicada?

 

Profª. Roseli:

As mochilas de rodinhas  podem minimizar o problema em relação ao peso, mas a forma de carregá-las pode se tornar um grande problema. A criança deve puxá-la de maneira que o tronco não faça uma rotação, nem inclinação, mantendo ambos os ombros na mesma altura, com os dedos voltados para trás (evitando-se a torção do tronco) e utilizando-se apenas em trajetos curtos.  A mochila de carrinho carregada de forma errada pode causar desalinhamento corporal, dores nas costas (principalmente na altura da cintura) e ainda dores no ombro.  Ela é totalmente inadequada se houver escadas, pois as crianças tendem a levantar a mochila, ocasionando maiores prejuízos. Eu, em particular, não as recomendo, a menos que haja estes cuidados diários, pois em todos os trabalhos de campo já realizados, observei que as crianças carregam-nas de forma totalmente inadequada.

Levar a mochila no ombro ocasiona problema?  E se houver revezamento, um tempo no esquerdo, outro no direito?

 

Profª. Roseli:

Não deve ser carregada somente num dos ombros, a não ser esporadicamente, com um mínimo de peso, caso contrário, mesmo que haja revezamento, sempre há a tendência para um ou outro lado. O peso deve ser distribuído sempre de forma uniforme na região central do corpo.  Esta prática, assim como a anterior pode levar a um desvio postural muito importante chamado escoliose, onde há uma inclinação lateral da coluna vertebral. Vale lembrar que esta escoliose é postural, chamada de não estruturada, pois as escolioses estruturadas normalmente são congênitas (apresentam-se ao nascimento) ou idiopáticas (sem causa conhecida) e independem da postura corporal.  

 

 

À semelhança das mochilas, as bolsas a tiracolo, apoiadas num ou noutro ombro, também oferecem perigo?  Como convém carregá-la?

 

Profª. Roseli:

A mesma observação da questão anterior se aplica às bolsas a  tiracolo, pois se observarmos, também há um exagero no peso destas bolsas, e vale a mesma regra dos 10% do peso corporal, com a agravante de ser carregado só de um lado, normalmente.  Vale a recomendação de só carregar o que realmente necessitamos (me incluo nesta) vistoriar diariamente os objetos, variar o modelo da bolsa, carregar numa das mãos também pode ser uma opção. Já existem hoje vários modelos que podem ser carregados como mochilas, bonitos e discretos. Se houver necessidade de carregar muitos objetos, tente dividi-los em uma outra sacola de mão, por exemplo.

 

 

Algumas pessoas preferem carregar a mochila à frente, ao invés de nas costas.  Isto ajuda ou atrapalha a saúde da coluna?  Qual a maneira mais apropriada para carregar a mochila?

 

Profª. Roseli:

Na verdade, carregar a mochila à frente, seria uma boa opção, mantendo as recomendações do peso e da altura, mas como elas foram projetadas para um carregamento posterior, pode haver uma dificuldade para o ajuste ideal e a criança, assim, inclinar o tronco para frente.

 

 

Considerando a orientação dos médicos de que o peso da mochila deve se limitar a 10% do peso da criança, ou 5% no caso de crianças menores, como ponderar isto, no dia a dia, quando não se tem uma balança por perto?

 

Profª. Roseli:

Em algum momento esta mochila deve ser pesada, em farmácias por exemplo há esta possibilidade, e aí os pais têm condições de fazer um comparativo com o que o estudante leva no dia a dia, quantidade de livros, cadernos e outros objetos. A escola também pode fazer este trabalho periodicamente.

 

 

Adolescentes, do 5º ao 9º ano escolar, por exemplo, têm, às vezes, quatro matérias diferentes num mesmo dia, ocasionando o transporte de grande quantidade de livros, cadernos e materiais.  A senhora tem alguma sugestão do que poderia ser feito para contornar este excesso de peso?

 

Profª. Roseli:

Sem dúvida, as escolas têm um grande papel nesta jornada. Distribuir melhor as aulas, por exemplo, muitas já optam pela “dobradinha”.  Outra medida importante seria a colocação de armários nas salas para guarda de livros.  Um outro exemplo, no ano passado quando  fui consultora em uma escola pública, decidiu-se por dividir os livros maiores em 2 e 4 partes, com pouco custo, uma encadernação simples, sem prejuízo ao conteúdo, o que minimizou o peso.  Os CDs ou conteúdos inseridos no site da escola, atualmente acessível pela grande maioria  dos alunos das escolas particulares, também tem sido opções favoráveis. 

 

 

Se uma pessoa, na tentativa de equilibrar o peso do que carrega, inovar o uso com duas mochilas, uma na frente e outra nas costas; isto, mesmo que diferente do comum, contribuiria para preservar sua coluna?

 

Profª. Roseli:

Além da questão estética, acredito que ficaria tão incômodo, limitando seus movimentos de tronco que não contribuiria. Em relação à distribuição de peso antero/posterior já há fisiologicamente uma diferença, principalmente naqueles que possuem abdomem mais protuso, por exemplo, o mais importante é mantermos uma simetria (igualdade) entre os hemicorpos direito e esquerdo.  

 

 

Talvez tenhamos, algum dia, a redução drástica - nunca total, acredito - de cadernos e livros, nas mochilas de nossos filhos, sendo substituídos, pela tecnologia digital.  Ao mesmo tempo também, poderemos vir a ter algum dia uma mochila com algum dispositivo que compense o peso do que carrega.  Parece mirabolante a ideia, mas quando alguém imaginou pela primeira vez uma caixa que transmitisse imagens, também estranharam.  Até lá, é importante que, nós e nossas crianças, saibamos escolher as mochilas adequadas e adotemos bons hábitos a fim de que tenhamos mais saúde, conforto e alegria.

Que observações ou dicas a senhora gostaria de acrescentar?

 

Profª. Roseli:

A mochila passou a ser uma grande vilã, mas na verdade o que se necessita são apenas cuidados e orientações. Há outros problemas tão graves não observados e igualmente, ou até mais, complicadores da postura em nossas crianças e adolescentes. O uso por períodos prolongados do computador, numa postura totalmente inadequada, sem apoio dos antebraços, sem apoio dos pés, com o tronco inclinado à frente muito perto do monitor ou realizando torções, sem falar do uso do notebook no chão, o que é um absurdo em relação à má postura praticada.  Ainda devemos apontar os videogames, também colaborando para  posturas inadequadas. 

Isso tudo associado à falta da prática frequente de esportes, leva a encurtamentos musculares muito prejudiciais, pois o osso está crescendo e o músculo precisa ser trabalhado.  

Estimule a prática de esportes, seja ele qual for, desde que a criança ou adolescente os realize com prazer.  Natação, por exemplo, é muito interessante, pois trabalha os dois lados do corpo.

Fiscalize a postura deles nas cadeiras, pois o ideal é sentar com as costas inteiras apoiadas no encosto, os pés apoiados no chão, sustentando a coluna.  Evite sentar na ponta da cadeira e levar a cabeça muito à frente do monitor.  Não deixe de fiscalizar também a carteira na escola; normalmente temos verificado que ela não atende às necessidades de uma boa postura. 

Não subestime as queixas de dor, procure sempre um profissional; e a vigilância ainda é uma boa forma de prevenção.

 

 

* Profª. Roseli Moraes

Diretora do curso e da Clínica de Fisioterapia da UnG - Universidade Guarulhos

Fisioterapeuta, mestre em Ciências do Movimento e especialista em Linguagem Corporal, Pediatria e Neonatologia.

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