Perfeição

J.R.Jerônimo


Muitos sonhos, projetos e até mesmo pequenas ideias deixam de ser realizados simplesmente porque seu idealizador tem mania de perfeição. Os perfeccionistas, na ilusão de que têm tal virtude, inclusive, gabam-se. Quando, na verdade, uma das grandes qualidades que uma pessoa pode ter é a da percepção do que pode ser feito da maneira mais próxima possível da perfeição e do que pode ser feito com um pouco mais de tolerância, mas acima de tudo, ser feito.

Sem dúvida podemos afirmar que, nesse caso, o ótimo é inimigo do bom. Que inúmeras tentativas de pôr ideias em prática, esbarram nas exigências e no alto nível de expectativa do próprio autor da ideia em relação aos resultados e ao seu próprio desempenho.

Um princípio, positivamente indicado, é este: "Em primeiríssimo lugar, fazer; e em segundo - depois que se teve o bom senso de que o mais importante é fazer - empenhar-se para fazer com a melhor qualidade possível, usando para isso o máximo dos recursos de que se dispõe". 

Quando dá certo, o perfeccionismo tem um lado ótimo que é o do alcance da obra-prima naquilo que se esteja realizando e a sensação de grande prazer pelo máximo que se conseguiu.  Mas na maioria das vezes, não é possível priorizar a perfeição para as obras que se quer e se precisa realizar, porque os recursos financeiro, técnico, material e cronológico não estão disponíveis em quantia nem quantidades compatíveis com a perfeição divina. Nessa hora o perfeccionista tradicional 

pensa, ou diz: "- Não!  Eu só faço se for otimamente bem feito!  Não ponho a mão para fazer porcaria."   Porque porcaria para ele não é uma coisa que é ruim, é apenas algo que não é perfeito.  Cai então na sua própria armadilha, ou seja, não faz.  Dependendo da circunstância, a perda pode ser grande, por causa de uma vaidade.

Prefiro fazer.  E, agora que resolvi que vou fazer, é que vou utilizar ao máximo todos os recursos que tenho, para conseguir o melhor possível, nessa obra e nessa oportunidade. Se você também preferir pensar e agir assim, então pode assegurar-se de uma coisa: você realizará muito mais na vida do que o perfeccionista.

O perfeccionista, pois, pode continuar com o desejo de conseguir o máximo de suas obras, e permanecer realizando pouco ou, se quiser, pode ponderar suas escolhas e vir a decidir que vai fazer, e então, agora sim, buscar a perfeição possível.

Se quiser, portanto, pode mudar a ordem dos valores: primeiro, fazer; segundo, fazer o melhor.  Porque se escolher não realizar nada, a menos que seja perfeito, continuará tendo frustrações por não atingir inúmeras vezes seus objetivos.  É triste a lembrança de alguma coisa boa que poderia existir, mas não existe só porque alguém a queria ótima.

Quando escolhemos primeiro o fazer, para depois o fazer melhor com os recursos disponíveis, não façamos raciocínios alheios ao bom senso.  Quer dizer, jamais

deveríamos construir, por exemplo, um viaduto para tráfego de todo tipo de veículo se não tivéssemos os recursos com qualidade para tal - profissionais, materiais, máquinas e tempo.  Sem estes meios, querer fazer esse viaduto, seria uma irresponsabilidade. Considerando que o bom, neste caso, seria um viaduto com a resistência e condições que pudesse ser trafegado com segurança e normalidade.  Enquanto que o ótimo seria exatamente a mesma coisa, porém com um projeto paisagístico, por exemplo, integrando-o ao ambiente existente.

Assim, quando os recursos que você tem não te permite fazer o ótimo, você pode se perguntar:

"-Mas dá para eu fazer o bom?" E se a resposta for "sim", é aí que entra o senso de quem é realizador:

Primeiro, Fazer;

Segundo, Fazer o Melhor.

A satisfação de se realizar muitas obras boas que estarão por aí, facilitando e melhorando a vida das pessoas, é maior do que o das obras ótimas que nunca existirão.

Por isso creio que a melhor medida de perfeição, aliada à segurança e ao atendimento da necessidade, é a função. Funciona bem?  Então, ...perfeito!

 

Este texto foi extraído do Capítulo 3 - Seu Melhor, do livro Acima da Vitória,  J.R.Jerônimo.

Dez-2001