Ônibus é 91% menor do que automóvel

J.R.Jerônimo

29.10.2012

Em junho de 2010, a pesquisa que realizei, nas principais vias de acesso à cidade de São Paulo, acerca da quantidade média de ocupantes no interior de cada automóvel, apontou para o número de 1,8.   Ou seja, menos de duas pessoas, incluindo o condutor, ocupavam cada um destes veículos de transporte individual.  A consequência disso é que, na comparação direta entre automóvel e ônibus, com base na prática diária de nosso trânsito, a diferença era gigantesca.  Numa faixa da via, com 10 km de comprimento, a quantidade de pessoas ocupando automóveis, se colocadas em ônibus, em vez dos 10 km, ocupariam 886 m, apenas.  Todos os detalhes dessa comparação podem ser vistos no artigo Ir e vir - dá para melhorar?  (http://www.jrjeronimo.com.br/artigos/artigos_jrjeronimo_ir_e_vir.htm), o qual considera somente passageiros sentados, com segurança e conforto.

E, se quiséssemos considerar pesquisa mais recente, da CET - Companhia de Engenharia de Tráfego, de São Paulo,  que aponta a ocupação média atual do automóvel como sendo de 1,4 pessoas, a diferença seria ainda maior, em favor da utilização do ônibus.

O caos do trânsito está aí, para todos verem e, pior, sentirem.  Ele é uma realidade há tanto tempo prevista, mas inconsequentemente não evitada. Gera todo tipo de mal: estresse, doenças respiratórias e neurológicas, desperdício de tempo, desgaste dos veículos, poluição, comprometimento de recursos naturais, redução das oportunidades de realização pessoal e profissional, prejuízo financeiro e, somado à sua desordem a legislação branda e correspondente impunidade, perdas de vidas.  Um artigo recente, de Celso Ming, O preço do trânsito travado, ilustra bem parte disso (http://blogs.estadao.com.br/celso-ming/2012/10/20/4782/).

A revolução para a mudança necessária está na mente.  Reflitamos um pouco para compreender melhor esse fato.

São várias as razões que podem interditar as mentes de proprietários, e candidatos a proprietários, de automóveis, entre elas:
- O sonho de ter um automóvel;
- O desejo de independência para locomover-se;
- A busca de autoafirmação;
Status.

São vários os motivos que podem bloquear as mentes de empresários do segmento de transporte coletivo e do de automóveis e autoridades relacionadas à questão, entre eles:
- Lucrar mais (com excesso de passageiros) com menos (oferta de ônibus);
- Explorar o desejo e o sonho das pessoas de terem cada vez mais automóveis, e mais modernos, velozes e caros;
- Miopia que impede enxergar um pouco mais longe e divisar um futuro que pode estar mais próximo do que se imagina, com mais equilíbrio, bem estar, fraternidade e prosperidade;
- Desconsideração de que as receitas e os empregos gerados na indústria automobilística também podem ser obtidos através de todos os investimentos e ações voltados para o transporte coletivo.  Apesar de que são secundários diante do problema maior que a falta de mobilidade proporciona;
- Inexistência de compromisso com um mundo melhor;
- Ausência de iniciativa e boa vontade.

De um lado, pessoas que querem ter automóvel a qualquer custo e de outro, sujeitos que querem enriquecer muitíssimo mais, sem parar, pouco se importando para o trânsito que ajudam a travar, mas que driblam com seus helicópteros. 

Enquanto tivermos mentes congestionadas, teremos um trânsito idem.   É preciso que cada um descongestione sua mente.

Que o usuário de automóvel - veículo de transporte individual - entenda que quanto mais automóveis, mais lentidão, mais acidente, mais custo de estacionamento, mais prejuízo, menos tempo para ser produtivo e realizador.

Que os empresários do transporte e as autoridades políticas competentes abram-se para a visão do bem coletivo e tomem medidas para a construção de mais ferrovias, linhas de metrô, hidrovias, corredores de ônibus e seus correspondentes veículos coletivos, bem como, ciclovias, bicicletários e calçadas.

Como não há mobilização efetiva, que deveria haver (mas que um dia haverá), por parte da população para promover a transformação necessária, que neste caso é no trânsito, a iniciativa fica a cargo do empresariado do transporte e, principalmente, das autoridades políticas.  Para que tomem as providências no sentido de que o transporte coletivo tenha intensificado sua ampliação e criação de novas alternativas para efetiva resolução dos problemas de congestionamento no trânsito.

Então, para efeito de referência, é isto.  Se considerarmos apenas ônibus, dentre os itens do transporte coletivo, já teríamos um extraordinário ganho em relação ao automóvel.   Posto que, na parte da via em que houvesse apenas ônibus, teríamos 91% (da via) livre, porque o espaço que este ocupa, na comparação com o automóvel em sua lotação média de usuários, é de 8,86%. É nesse contexto que podemos afirmar que o ônibus é 91% menor que o automóvel.

O exercício do direito de se ter um automóvel não se compara ao muito mais valioso direito de ir e vir.  Que andem as mentes para não pararmos no trânsito.


Comentários


O grande problema de nosso país, é que os políticos só se mobilizam para aquilo que eles vão obter lucro, desviar verbas, etc... Hoje vejo o tamanho da ignorância qdo se incentiva por exemplo a se comprar automóveis, e nem se quer há investimento em combustíveis menos poluentes... E se olharmos para todos os campos, é isso, só se valoriza o dinheiro, e nosso Planeta vai morrendo aos poucos... Andei muito de ônibus, e meu carro ficava na garagem, mas cheguei no meu limite, pq andar de ônibus na situação atual, chega a ser humilhação. Hoje, a maioria que se sujeita a andar de transporte público, é por falta de ter opção. E enquanto o ser humano só pensar em dinheiro, e benefício próprio, a tendência, infelizmente, é só piorar...
Simone Galera
Quarta-feira, 31 de outubro de 2012, 11:00 h


Infelizmente nosso poder público, ainda não se preocupou devidamente com o meio de transporte, tão importante para todos nós e para eles também. Assim, vamos chegar um dia que vai travar tudo.
Aluísio Nicácio da Silva
Quarta-feira, 31 de outubro de 2012, 08:28 h

Dr. Humberto
No seu caso, o uso do carro é muito bem-vindo, não apenas ao senhor, mas também às pessoas que são beneficiadas pelo seu trabalho como médico.  É o que chamo de uso seletivo, que não tem a ver com a pessoa, mas com a real necessidade dela; outros autores chamam de uso eletivo.  No artigo anterior, "2042" (http://www.jrjeronimo.com.br/artigos/artigos_jrjeronimo_ 2042.htm), eu falo um pouco disso também.
Obrigado.
Abraço.
J.R.Jerônimo


Caro, concordo em parte, não estou puxando a brasa para a minha sardinha. Sou cirurgião, atuo na zona Sul, na região da Paulista diariamente e eventualmente na zona Leste. Transporto no meu automóvel duas caixas com material cirúrgico pesando cada uma em torno de 15 kg. O que farei? Quem pode e deve deixar o carro na garagem são as madames  que deixam os filhos no colégio e depois circulam na cidade até a hora de pegá-los de volta, além de circularem sozinhas, ainda usam o sinal vermelho para retocar a maquiagem esquecendo que há muito já mudou para verde rsrsrsrs.
Abs.

Humberto Luna Freire Filho
Segunda-feira, 29 de outubro de 2012, 22:39 h


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