Enquanto a frota soma, o congestionamento multiplica.

J.R.Jerônimo


27.08.2010

Neste breve artigo, quero chamar a atenção para um dado, no mínimo, interessante acerca da relação entre frota e congestionamento.  Tal constatação, obviamente, não é irrefutável e tem sua flexibilidade conforme a variação dos elementos do trânsito - quantidades e condições dos automóveis, caminhões, ônibus, vias, sinalização, fiscalização, organização, etc. - mais as peculiaridades de cada local e o momento da pesquisa. 

Esta observação refere-se à cidade de São Paulo, no período de 2000 a 2010, podendo servir de exemplo, razoavelmente, para todas as grandes cidades.

 

Assim, com base nas informações do Detran SP - Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, a frota, em jan-2000 era de 3,91 milhões de automóveis.  Evoluindo, em jan-2010, para 4,97 milhões.  Tal acréscimo, portanto, deu-se na proporção de 27%.  Guarde este número.

 

Agora, segundo estudo do Movimento Viva Nossa São Paulo, baseado nas informações da CET - Companhia de Engenharia de Tráfego, em 2000, a média do pico do congestionamento entre manhã e tarde, foi de 20 km.  Enquanto que em 2010, esta média saltou para 98 km.  O que significa um aumento de 390%.  É... 390%.

 

Lembra o aumento da frota?  27%

E o congestionamento? 390%

Isto quer dizer que, a cada aumento da frota, de automóveis, o congestionamento aumenta 14 vezes mais.

Esta constatação não é absoluta, como disse no início.  Porém, salvaguardados pequenos erros e possíveis variações, há que se considerar que trata-se de uma relação bastante importante entre os dois fenômenos, frota e congestionamento. 

 

A explicação do porquê se dá esta diferença de percentuais, entre os aumentos da frota e do congestionamento, é simples.  Da mesma forma que os veículos existentes, num dado momento da frota, não têm seus usos equitativamente distribuídos ao longo do dia, os novos que são acrescentados à esta frota também não terão.  Quer dizer, os novos veículos aumentam a frota num percentual relativo ao total desta frota, mas o percentual de aumento do congestionamento não se relaciona ao total de horas do dia e sim às horas de concentração maior de veículos.   Daí o percentual de aumento do congestionamento ser sempre superior ao do aumento da frota.

 

O leitor pode, ainda, questionar o fato de que estes percentuais não são exatos porque a frota quantificada foi a de automóveis e o congestionamento é de todos os tipos de veículos automotores.  E estará correto.  Todavia, o maior causador do trânsito é a quantidade excessiva e crescente dos automóveis, mais do que qualquer outro tipo de veículo.  De forma que ele, o automóvel, é o fator e a referência principal na causa do congestionamento.

Para efeito de verificação dos demais tipos de veículos, vide tabela.

Frota da cidade de São Paulo

Período

ciclomoto, motoneta, motociclo, triciclo e quadriciclo

micro ônibus, camioneta, caminhonete e utilitário

automóvel

ônibus

caminhão

reboque e semi-reboque

outros

Total

jan/2000

348.098

411.457

3.908.816

36.241

163.421

67.468

12.638

4.948.139

jan/2010

823.657

658.022

4.969.456

41.810

164.071

69.917

6.167

6.733.100

aumento de

475.559

246.565

1.060.640

5.569

650

2.449

-6.471

1.784.961

136,6%

59,9%

27,1%

15,4%

0,4%

3,6%

-51,2%

36,1%

Razão entre congestiona-     mento e frota

3

7

14

25

981

107

-8

11

 

A propósito, podemos verificar que, mesmo se considerarmos apenas o acréscimo de “ciclomotores, motonetas, motociclos, triciclos e quadriciclos”, onde a predominância é, na realidade, de motocicletas, em que ocorrera o maior índice de aumento da frota, 137%, o congestionamento aumentou na razão de 3 vezes isto.  No caso de “micro-ônibus, camionetas, caminhonetes e utilitários”, 7 vezes; “ônibus”, 25 vezes; “caminhões”, 981 vezes.  Na média geral, abrangendo-se todos os tipos de veículos, o aumento do congestionamento foi superior 11 vezes.

 

Retomando o principal fator do congestionamento - o automóvel - veremos que, se pegarmos uma frota de 100 automóveis e, num dado tempo, acrescentarmos a ela 10 automóveis, o aumento terá sido de 10%.  Certo?  Agora, quanto isto representará em aumento imediato do congestionamento?

Segundo a observação realizada acima: o congestionamento será aumentado em 140%.  O que corresponde a 14 vezes o que a frota de automóveis aumentar.

 

E a frota continua crescendo?  Claro que sim.  Só neste primeiro semestre de 2010 aumentou aproximadamente 1,6% em relação aos números acima.  E o congestionamento?  Também.  Aproximadamente 14 vezes 1,6%, ou seja, 22,4%.

 

E o que fazer?

1.       Os empresários do transporte coletivo com as autoridades políticas, assessorados por especialistas de trânsito, devem, "pra ontem", providenciar a inserção de ônibus para as ruas da cidade, tanto para linhas novas, como para linhas já existentes.  De modo que, por exemplo, 20 mil ônibus, em 5 viagens por dia, ida e volta, poderiam tirar aproximadamente 2 milhões de automóveis de circulação.  

2.       Por outro lado, os usuários de automóveis devem conscientizar-se de que precisam passar a utilizar ônibus, à medida que a oferta destes aumentar, ao invés de automóvel.

3.       Trem e metrô são modalidades de transporte coletivo que mais precisam, e de modo permanente, ter suas ofertas aumentadas.  Barco também deve ser considerado, porque todo esforço é válido para que não afundemos parte importante de nossa oportunidade de locomoção.

 

Senão, do jeito que este congestionamento vai, nós é que, em breve, não iremos.  Urge fazermos o congestionamento parar, parar de crescer, e então diminuir, para que todos nós usuários do trânsito, continuemos, agora e no futuro, a exercer o nosso sagrado direito, de ir e vir.