Abaixo a velocidade acima

J.R.Jerônimo

Este artigo também foi publicado nos sites:

- 18.03.2010 - Projeto social da Perkons S.A. - www.educacaoetransito.com.br - http://www.perkons.com/index.php?page=noticias&sub=opiniao&subid=453&pagina=1

- 28.03.2010 - Jornal do Commercio do Recife, http://jc.uol.com.br/ - coluna "De olho no trânsito", de Roberta Soares -  http://jc.uol.com.br/coluna/de-olho-no-transito/noticia/2010/03/28/um-passo-a-frente-na-lei-seca-217835.php

- 29.03.2010 - Portal São Lourenço da Mata - www.slnet1.com - http://www.slnet1.com/si/site/jornal_materia?codigo=4040

- 29.03.2010 - ABETRAN Associação Brasileira de Educação de Trânsito - www.abetran.org.br - http://abetran.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=13816&Itemid=143 


Qual a característica mais anunciada nos lançamentos de novos modelos de automóveis?

Várias características, nestes veículos cada vez mais avançados tecnologicamente, são divulgadas ao público consumidor: computador de bordo, gps, abs, sensor de chuva, câmera, câmbio automático, tv digital, suspensão eletrônica, etc.. 

Mas, uma destas características figura como sendo das mais importantes, se não for a mais importante, pelo menos do ponto de vista do fabricante, do publicitário e, pelo visto, por muitos consumidores.

Trata-se do item: “velocidade”.  Sob o argumento de que se consegue chegar a 100 km/h em poucas unidades de segundos.  E quanto menor esta quantidade de segundos, maior a ênfase da vantagem anunciada.

Porém a velocidade não fica por aí, ou seja, não se mantém nos 100 km/h ou 120.  Muito pelo contrário, ela até se multiplica.  Nas mãos de nossos consumidores motoristas, temos veículos de várias marcas cujo potencial do conjunto mecânica, estrutura e aerodinâmica ultrapassa a velocidade de 200 km/h, chegando, em alguns modelos(1), a 300 km/h. 

Não devemos tecer comparação com países, por exemplo, da europa ou américa do norte, quanto às escolhas que fazem ou deixam de fazer seus consumidores e suas sociedades no que diz respeito às velocidades que seus veículos podem ou devem ter.  Também não devemos, em hipótese alguma, esperar que eles tenham a iniciativa de alterarem essa liberalidade em suas largas e muito bem pavimentadas vias e estradas para, então, tomarmos providências aqui também.  A propósito, Itália e França(2) já têm estabelecido suas velocidades máximas em 130 km/h.  Enquanto que a Alemanha(2), mesmo sem estabelecer velocidade máxima em 45% de suas estradas registra, em 2009,  seu menor índice de mortos em acidentes de trânsito, desde 1950; o que deve-se à excelente qualidade de suas estradas e ao ótimo nível de consciência e responsabilidade de seus motoristas.  Mas continuo não fazendo comparação, porque meu foco neste momento está mais para o

potencial de velocidade dos veículos do que para a velocidade máxima das vias.

Neste campo, o Código de Trânsito Brasileiro(3), Lei 9503, de 23.09.1997, determina:

Art. 61 - A velocidade máxima permitida para a via será indicada por meio de sinalização, obedecidas suas características técnicas e as condições de trânsito.

§ 1º Onde não existir sinalização regulamentadora, a velocidade máxima será de:...

II - nas vias rurais;

a) nas rodovias;

1) 110 (cento e dez) quilômetros por hora para automóveis, camionetas e motocicletas;...

§ 2º O órgão ou entidade de trânsito ou rodoviário com circunscrição sobre a via poderá regulamentar, por meio de sinalização, velocidades superiores ou inferiores àquelas estabelecidas no parágrafo anterior.

Independentemente da qualidade de nossas estradas, em nenhuma delas a velocidade máxima regulamentada é superior a 120 km/h(4).  

Mesmo assim, segundo o Ministério da Saúde, o trânsito no Brasil matou 37,5 mil(2) pessoas em 2008.  Sendo que as cinco principais causas foram: álcool, cansaço, desrespeito à sinalização e imprudência, excesso de velocidade e impunidade e falta de fiscalização.  Embora a causa mais frequente tenha sido a ingestão de álcool pelos motoristas, a velocidade alta sempre foi um elevador da gravidade de qualquer acidente. No mínimo quatro pessoas por hora morrem nas estradas, avenidas e ruas do Brasil.

Por isso, quero sugerir uma reflexão sobre a relação entre o potencial de velocidade de nossos veículos e a velocidade máxima regulamentada em nossas estradas.  Excetuando-se os veículos de emergência - como bombeiros e ambulâncias -, de segurança - como polícias e forças armadas - e de competição - como os utilizados restritamente nos autódromos -, por que outro veículo deve ter seu potencial de velocidade superior à velocidade máxima regulamentada?

Nesta reflexão, peço considerar a ideia de se reduzir o potencial de velocidade de todos os tipos de veículos: automóveis, motocicletas, caminhões, ônibus e carretas, proporcionalmente à velocidade de segurança relativa a cada um.  Oportunidade em que, a indústria automotiva, também poderia aproveitar para aumentar o potencial de torque.  De modo que o tempo de partida e retomada de velocidades dos veículos fosse mais favorável à segurança e fluidez do trânsito, principalmente no caso dos veículos que carregam cargas pesadas e atravancam o tráfego nos aclives. 

Não aponto isto com teor de solução para se reduzir o número e a gravidade dos acidentes de trânsito, mas como uma ação coadjuvante neste objetivo.  Pois, dentre as medidas para melhoria de nossa qualidade de vida no trânsito, a principal, sem dúvida alguma, é a educação do motorista.  Apenas neste campo, o da educação do motorista, tanto há que ser feito que podemos dizer que é preciso uma revolução.  Temos que reestruturar o conteúdo e a forma da didática nas autoescolas, bem como reciclar total e permanentemente seus instrutores.   Aumentar o grau de exigência quanto ao conhecimento do Código, à habilidade, à perícia, à condição psicológica e física e à escolaridade, por parte dos motoristas.  Proceder à limitação de quantidade de veículos nas vias; à fiscalização mais presente, para orientar os usuários; à punição efetiva e exemplar dos que desrespeitam a ordem; à manutenção adequada das vias e suas sinalizações; entre outras ações.

Se, a este conjunto de medidas para a melhoria da qualidade de vida no trânsito, juntarmos a redução do potencial de velocidade dos veículos, você acha que contribuiria?

Pois, se assim fosse, daqui para frente, os veículos comercializados para fins de uso do cidadão comum, teriam sua velocidade limitada conforme a velocidade máxima regulamentada para as estradas de nosso país. 

Portanto, abaixo a velocidade acima acima da máxima que está regulamentada.

25.02.2010

1.  http://rankz.wordpress.com/2008/09/06/os-dez-carros-mais-rapidos-do-mundo/

2.  http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1441341-5598,00-VIOLENCIA+NO+TRANSITO+CUSTA+R+BILHOES+POR+ANO+AO+PAIS.html

3.  http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L9503.htm

4.  http://www.webmotors.com.br/wmpublicador/Testes_Conteudo.vxlpub?hnid=36869