A melhora possível

J.R.Jerônimo


Óbvio que, se fosse possível providenciar as mudanças necessárias à sociedade, na sequência e intensidade, segundo suas prioridades, seria o ideal.

Porém, na prática, em razão de fatores econômicos, sociais e, principalmente, políticos, a história é bem diferente.

Então, o que fazer?  Creio que a primeira mudança, ou seja, a mudança mais prioritária, neste caso, deveria ser a de, a sociedade, através de cada indivíduo - eu, você -, cada família, cada associação e entidade, unirem-se organizada e ordenadamente, para determinar o comportamento político adequado de nossos representantes, junto às três esferas governamentais - município, estado e federação - e junto aos três poderes que de cada uma destas esferas emana - legislativo, executivo e judiciário.  De modo que passassem a basear todas suas decisões por meio de critérios alinhados somente com o que for "mais" benéfico à maioria das pessoas deste país, com "honestidade", "transparência", "prioridade", "segurança", "economia", "pragmatismo", "abrangência", "coerência".

É fácil esta mudança?  Não!  Mas, a visão que tenho é a de que, a cada dia, nós brasileiros, estamos nos aproximando do momento de nossa história em que esta resposta será: Sim!  Pois, cada vez mais, temos democratizado o acesso às informações, cada vez mais, temos pessoas se conscientizando de seus direitos e obrigações, cada vez mais, estamos nos dando conta do que somos capazes, como nação e como brasileiros, em todas as áreas - agricultura, indústria, geração de energia, tecnologia, ciência, esportes, etc. -, de forma que, a meu ver, se aproxima o dia do vislumbre da convicção de que, assim que quisermos, poderemos fazer esta mudança. 

A falta de nossa maturidade na área da educação ainda nos atrapalha nesta mudança, mas não a impede.  Aliás, o atraso no desenvolvimento educacional em nosso país deve-se exatamente para que esta mudança nunca acontecesse; tempo em que - com algum resquício ainda hoje - os líderes políticos eram tão medíocres que desejavam um povo o mais ignorante possível a fim de que os obedecessem cegamente, sem noção de direito algum, nem de cidadania. 

Apesar disto, esta mudança - a de que nossos representantes políticos passem a ter um comportamento que vise sempre o bem da maioria de nossa

população, com base nos valores acima citados, e com priorização por grau de importância - está cada vez mais próxima de ocorrer.  O que, certamente, requererá de cada um de nós, esforço, mas dará em seguida, muita alegria e bastante motivo para patriotismo.

Enquanto ainda não fazemos esta grande mudança, que é a mais estrutural e prioritária, deixaremos, por causa disto, de fazer as pequenas mudanças?  Certamente que a resposta mais produtiva é: Não!  Pois as mudanças menores, para melhorias possíveis, também devem ser feitas.  Não apenas para os avanços que conseguirmos realizar, mas também porque, de passo em passo, vamos fincando mais fundo as raízes de nossa democracia e exercitando mais efetivamente nossa cidadania.  Atitudes estas, que promovem um ambiente crescentemente favorável para mudanças mais importantes e mais prioritárias também.

Que as influências dos fatores econômicos, sociais, políticos, quando negativas, não sejam de tal monta que afetem também os projetos menores, mais simples e menos significantes.  Que tais projetos continuem sendo realizados, um após outro, sem parar, em favor do maior número possível de pessoas, das quais fazemos parte todos nós, mesmo que seus benefícios não sejam os mais importantes na escala de prioridade.

Dois exemplos disso, entre tantos outros, foram a criação e implantação das leis “cidade limpa” na cidade de São Paulo e “antifumo” no estado.

A primeira, lei cidade limpa - Lei nº 14.223, de 26 de setembro de 2006 - que entrou em vigor em 1 de janeiro de 2007, resultou, a princípio, em muita confusão e contrariedade por parte dos lojistas que tinham as fachadas de seus estabelecimentos carregadas de grandes placas de publicidade e outros empresários que utilizavam os espaços públicos com excesso de outdoors, back lights, front lights, etc..  Houve multas para os infratores e prejuízo para quem vivia deste negócio mas, em compensação, passado a turbulência, a cidade ficou mais bonita e as edificações, que antes escondiam-se atrás das publicidades, passaram a mostrar suas fachadas históricas, atraindo agora, pessoas, tanto para compras, quanto para turismo.

No segundo caso, a lei antifumo - Lei nº 13.541, de 7 de maio de 2009 - que

entrou em vigor desde 7 de agosto de 2009, com ampla divulgação e fiscalização, fazendo valer a proibição de fumar em ambientes públicos cobertos e com pelo menos uma parede.  Antes mesmo do sucesso estrondoso na melhoria dos ambientes, que tornaram-se mais saudáveis e convidativos a um número maior de pessoas e famílias, tal medida do governo estadual recebeu amplo apoio da maioria da sociedade.  No entanto, algumas pessoas entrevistadas na rua, como transeuntes, e nos bares e restaurantes, como frequentadores, tanto fumantes, como não-fumantes, exclamavam coisas como:   "Vê se pode, com tanta gente passando fome e o governo se preocupa com uma coisa dessas."  E outro: "Esse governo não tem o que fazer?"  E mais um: "Por que o governo não vai prender bandido?  Será que é cego?  Não vê a violência e a criminalidade?"

Pois é.  Nos referimos às leis “cidade limpa” e “antifumo” para exemplificar estas reações em favor da prioridade absoluta que deveria existir por parte dos governos, mas elas se aplicam a qualquer medida que não esteja entre as primeiras na ordem de importância para a sociedade.  E será sempre assim, até que realizemos a grande mudança que nos referimos no início deste artigo.

Na busca da melhor convivência entre seus cidadãos, pela evolução de seus usos e costumes e pelas leis que cria, toda sociedade promove mudanças.  Mudanças que, quando pequenas e não prioritárias, tendem a inibir, por exemplo, erros pequenos.  À medida que tais mudanças acumulam-se a ponto de inibir muitos erros pequenos, pode, por consequência, tornar a sociedade intolerante aos erros maiores.  O que, é extremamente positivo para sua ordem e prosperidade.

Então..., façamos agora as melhoras “possíveis” de se fazer “agora”.  Façamos o que conseguirmos fazer, mesmo que não seja o prioritário, mas que seja benéfico.  Neste sentido, uma melhoria puxa a outra e a cultura do progresso e da prosperidade tornar-se-á constante e permanente.   De forma que os benefícios atinjam até mesmo os que não concordam com tais mudanças.  Mudanças que, pouco a pouco, vão contribuindo para termos uma sociedade mais equilibrada, mais justa e livre, tornando-se fonte de mais oportunidades de realização para todos nós, cidadãos.

09.03.2010