Casa da Candinha - Prospectivo Patrimônio Cultural e Ambiental

Elmi El Hage Omar


23.04.2011

   

Se você leitor é guarulhense, já deve ter ouvido falar na Casa da Candinha, a antiga casa sede da Fazenda Bananal. Inicialmente símbolo de um poder voraz escravocrata, hoje se encontra num período embrionário que produzirá um Centro de História e Memória das Culturas Negras, um local com potencialidade de preservação ambiental e produção da igualdade humana.

  

Localizada numa região que ainda preserva o bioma natural, passa por um período de transição; é parte de um estímulo ao aprofundamento de estudos e ações igualitárias e ambientais, para responder perguntas inquietantes como: 

Quem eram os escravos que trabalharam compulsoriamente em Conceição dos Guarulhos? 

Como foram as relações sociais envolvidas no processo escravista e pós-abolição? 

Quais foram os agentes sociais que participaram na metamorfose e ruptura da mentalidade escravista ocorridas neste território? 

E finalmente, quais as pretensões em relação à implantação desse centro de estudos? 

   

Há alguns anos elaboro essa pesquisa e com apoio da CIR (Coordenadoria da Igualdade Racial) produzimos um primeiro ensaio, a ser lançado em forma de livro ainda em 2011 (CASA DA CANDINHA - RUPTURA E METAMORFOSE - De Casa Grande a Centro de História e Memória das Culturas Negras, DDR Editora, 2011), que servirá como fomento a identificação e historicidade dos autores negros e seus descendentes da história paulista e guarulhense, sem o vício comum de estigmatizá-los como submissos e ideais escravos.  Rebeliões dos escravizados, inclusive do índio, foram identificadas, além da consideração de um possível polo de resistência quilombola em Guarulhos.

   

Porém, para realização plena desse projeto, muitas coisas ainda terão de ser discutidas e realizadas tendo em vista a concretização desse centro de estudos; constatamos ainda que o estudado até esse momento é apenas uma base para essas consecuções.

  

Um dos pontos mais importantes é a discussão sobre o trajeto e forma do Rodoanel.  Antes de considerarmos esse tema, é importante abordar a esperança de que a Casa da Candinha, constituída em unidade de conservação, associe atributos históricos e culturais aos ambientais, possibilitando assim a criação de uma zona de amortecimento do avanço urbano.

  

O resultado esperado da inclusão do Centro de História e Memória das Culturas Negras (Casa da Candinha), é o fortalecimento e formação de um corredor ecológico, com a criação da APA (Área de Proteção Ambiental) Cabuçú- Tanque Grande fazendo a ligação com a APA Paraíba do Sul e APA Federal do Jaguari, preservando importantes áreas de mananciais no Estado de São Paulo.

  

Retornando à questão do Rodoanel, esbarramos em outro interesse que é a especulação imobiliária advinda da construção dessa via de ligação que prioriza o transporte rodoviário, já saturado.

  

Inúmeros especialistas renomados afirmam que a construção do trecho Norte do Rodoanel poderá acentuar o problema de ocupação em áreas de mananciais importantes na Serra da Cantareira, que de certa forma, resistiram à

urbanização.  Destacamos também que dependendo do traçado e nível em relação ao solo, do trecho Norte, o Rodoanel poderá isolar ou incrementar o Parque Natural Municipal da Cultura Negra Sítio da Candinha e o Centro de História e Memória das Culturas Negras (Casa da Candinha), onde foram investidos mais de um milhão de reais, provenientes dos cofres públicos.

  

No momento da escrita desse artigo (início 1º semestre de 2011), há grande ansiedade de como serão discutidas essas questões nas audiências públicas programadas.  Esperamos e contribuiremos para que os lados antagônicos tenham bom senso, modéstia e humildade.  Destacamos essas qualidades, pois observamos com as chuvas de de janeiro de 2011, as grandes tragédias anunciadas, resultado de ocupações urbanas que comumente chamamos de “desordenadas”.  Na verdade, nada tem de desordenado e muito tem de descuidado e arrogante.  A história tem mostrado que o homem não é o dominante sobre a natureza e, quando tem essa atitude, muito lhe é cobrado.

  

ELMI EL HAGE OMAR é conselheiro do Compir e do Comtur, escritor, professor, pesquisador em história e correlatas. elmiehomar@gmail.com

Saiba mais sobre este autor, no site www.leguarulhos.com.br

 

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