Século Passado...

Célio F. Oliveira


No final do século XIX e começo do século XX, o voto no Brasil era universal e todo e qualquer cidadão tinha direito a ele. O problema estava em quem era considerado como tal. O título de cidadão era algo que pertencia a poucos nobres e afortunados, conhecedores das ciências, detentores de poderes políticos e econômicos, enfim, uma elite minoritária.  A classe humilde e miserável, a grande massa populacional, não tinha esse privilégio, logo não votava. 

É nesse cenário de interesses econômicos, políticos e de poder que havia uma figura quase que folclórica na história brasileira: o “fósforo”.

O “fósforo” era o nome dado a um “profissional” da época que tinha a incumbência de comparecer aos devidos locais de votação, nas datas dos pleitos, e fazer-se representar eleitores que, por qualquer motivo, inclusive sua morte, não poderiam comparecer, votando em seu lugar. 

Um excelente “fósforo” era aquele indivíduo que conseguia visitar o maior número de locais, e assim votar pela maior quantidade possível de 

“cidadãos”.

Nos dias atuais, quando nos deparamos com histórias como essa, pensamos, refletimos e muitas vezes concluímos quão leiga e passiva demonstrava-se a população daquela época.  O quanto os interesses da comunidade não eram claramente entendidos pelos formuladores de leis e, quando o eram, faziam-se passíveis de corrupção.

Pois bem, se hoje temos essa imagem dos formuladores de leis e de uma população em uma determinada época passada, que ideia terão de nossa sociedade atual brasileira no futuro?

Imaginem uma discussão dada no ano de 2120 em que a pauta seja “o sistema financeiro brasileiro no início do século passado”. 

Com certeza dirão que a nossa população é pacífica e leiga ao permitir que instituições financeiras lucrem cada vez mais tomando dinheiro a título de empréstimo “disfarçados” de poupança, pagando menos de 1% de juros ao mês, ao passo que empresta

o mesmo dinheiro aos que dele necessitam, cobrando-lhes até 10% ao mês. 

Indignado, alguém ainda dirá: “...e o governo e as instituições políticas, não eram capazes de reconhecer tal disfunção social que tanto valor agregava a poucos, aumentando a desigualdade e a distribuição de renda?” 

Com certeza a resposta será algo como: “Percebiam, cediam aos lobbies das instituições financeiras e ratificavam tal processo, alegando serem instituições de importância no processo de estabilização econômica do país, além de serem os financiadores dos principais candidatos ao poder executivo, pois naquela época a eleição era um investimento do setor privado.  Sem dúvida era uma época difícil onde as instituições financeiras se apoderavam das instituições criadas para proteger a sociedade, capturando-as, fazendo-se prevalecerem seus interesses.”


Célio F. Oliveira

Bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela USP

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