Indigna ação?

Célio F. Oliveira


Indignação! Esta sim talvez seja a palavra mais adequada capaz de expressar meus sentimentos naquele momento. 

A história que ora vos conto ocorreu em meados do mês de março de 1998, quando  eu estava, na condição de vendedor de produtos e equipamentos laboratoriais escolares, numa cidade de uns 100.000 habitantes (cujo nome prefiro ocultar por motivos óbvios), no estado do Espírito Santo, sentado à recepção de uma universidade privada, a mais bem conceituada e estruturada daquela cidade, quando li, impressa em uma pequena nota naqueles “jornaizinhos de mesa de centro” com os seguintes dizeres: “Prefeito reeleito é acusado de ter desviado verbas da educação no município durante sua primeira gestão”.

O fato de o prefeito em questão ter sido reeleito não me causou espanto nem tampouco indignação, afinal de contas notícias de corrupção e impunidade infelizmente já fazem parte de nosso cotidiano. 

Passadas aproximadamente três

horas, depois de uma árdua negociação em minha empreitada de vendas, já quase me esquecendo do que havia lido pela manhã naquele simples periódico, estava eu num restaurante da cidade quando um fato me causou tamanha indignação: ao lado da senhora proprietária/mantenedora daquela instituição acadêmica, descobri, durante um bate-papo pós refeição, que ela era a Primeira Dama da cidade.

Apesar de simpatizante dos princípios comunistas, poupo de muitas críticas, nesta sociedade moderna, os empreendedores.  

Empreendedores que por sinal são os grandes responsáveis pelas taxas de desemprego não serem mais desanimadoras do que realmente são, visto até que possuem um grande aliado ao seu lado: A própria Constituição Federal que, em seu artigo 1º, Item IV é bem clara e sucinta quando dispõe que um dos fundamentos deste Estado Democrático de Direito são “os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”. 

Minha indignação transbordou naquele instante, sim, ao sentir a impotência da

máquina geradora de políticas públicas que é o Estado em competir com aquela instituição de ensino.

O Artigo 205º da nossa Constituição Federal também dispõe que “a educação é um direito de todos e dever do Estado e da família”.  Pobre Estado este nosso que tem como obstáculo competir com uma instituição provedora de serviços educacionais, cujos mantenedores têm forte laço (no caso, “matrimonial”) com a autoridade máxima do Executivo naquela pobre cidade. 

No decorrer de minha vida acadêmica, somada à minha carreira profissional, aprendi que Equidade x Eficiência é um grande dilema e caminham em sentido opostos, ou seja, quando você amplia um, regride o outro e toda “empresa” existe para ser o mais eficaz possível, extraindo o máximo de lucro dentre os recursos disponíveis, minimizando a concorrência. É esse um dos incentivos da livre iniciativa. Pobre Estado, pobre cidade, pobre educação...


Célio F. Oliveira

Bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela USP

Comente este artigo.

(O texto publicado neste espaço é de responsabilidade e direito de seu autor e não precisa, exatamente, refletir a opinião deste site.)