Dia do orgulho negro

Ari Carlos da Rocha


20.11.2012

O dia 20 de novembro no calendário escolar é como todos vocês já sabem a data em que comemoramos o dia da Consciência Negra. Não é uma escolha por acaso, tendo em vista que em 20 de novembro de 1695, portanto há 317 anos, Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, após comandar uma resistência heroica, foi brutalmente assassinado em uma emboscada.  Zumbi dos Palmares nos deixou há exatos 317 anos, mas seu exemplo permanece vivo entre nós. Como foi Luther King para os Estados Unidos, Mandela para toda a África e Gandhi para a Índia, no Brasil Zumbi é quem nos dá a direção a seguir. Ele idealizou e organizou Palmares no estado de Alagoas,  implantando ali um regime de liberdade mesmo tendo presenciado só injustiças e tiranias em sua vida. Todos eram bem-vindos em Palmares desde que se dispusesse a lutar pela liberdade. Este é o grande exemplo de Zumbi para toda a nação brasileira. O povo negro mesmo escravizado pelo branco, quando um índio ou um branco pobre batia nas portas de Palmares era recebido como um Irmão. Palmares: uma verdadeira democracia aos moldes greco-romanos e, em pleno nordeste brasileiro.  Zumbi já entendia em pleno século 17 algo muito importante: existe no mundo apenas uma raça.  A raça humana.

Mas... se no Brasil muitas pessoas morreram lutando por ideias libertárias, então se pode perguntar: em meio a tantos heróis, uns legítimos outros fabricados, por que Zumbi dos Palmares é um líder tão prestigiado?

Zumbi, sem dúvida era o líder diferenciado do Brasil, que, mesmo sofrendo tanto com a escravidão, ao fugir despiu-se de todo e qualquer preconceito e abrigou em seu reino, negros, índios e brancos desde que fossem explorados e pobres. Isso fez Palmares ficar tão forte. Os palmarinos não se sentiam oprimidos por causa de sua cor de pele fazendo-os viver a solidariedade, com isto todos ali queriam defender Palmares a todo custo. Uma estratégia comparada à dos grandes generais da história ocidental. Zumbi liderou o seu povo lutando em prol da liberdade de todos. E o fez até as últimas consequências, ou seja, até a sua morte por traição aos 40 anos de idade.

O Brasil deve muito ao povo negro, que, nas senzalas ao invés de destilar ódio e rancor contra os fazendeiros que os espoliava, preferia cantar as musicas alegres e as danças rituais que os fazia lembrar-se de Mama África.  Fabricavam tambores e instrumentos de corda com os quais desenvolveram a nossa capoeira, hoje um símbolo do nosso país, rezavam para os seus santos mesclando as crenças católicas, ganhando assim mais liberdade de culto, mais força e paciência para suportarem tanto sofrimento e humilhação.  A raça Negra dando mais um exemplo de humildade a todos nós de todas as etnias que compõem o Brasil, rejeitos ao ódio e à vingança contra aqueles que os oprimia. O povo negro mesmo com todo o sofrimento soube amar o Brasil até mais do que todos nós. Prova disto é o episódio conhecido com Guerra do Paraguai que o correu de 1864 a 1870. O Brasil não perdeu grande parte do seu território graças à bravura do povo negro nesta  guerra. Vejam, quando o Brasil foi invadido pelo Paraguai, que na época era uma potencia bélica, o fazendeiro ao invés de mandar um ou dois filhos para a guerra mandava cinco ou dez escravos. Estes foram então lutar com todas as suas forças para defender a pátria que os escravizava. Assim, uma porcentagem significativa dos soldados nesta época era composta por escravos. E, se não fosse por eles o Brasil teria perdido uma boa parte do seu território para o Paraguai. Na verdade, quando estes soldados negros voltavam para as fazendas, heróis de guerra e com o peito coberto de medalhas, só restava aos fazendeiros abaixarem as cabeças movidas pela vergonha de terem escravizado aquelas pessoas; reconhecendo-lhes, enfim, a boa índole e a coragem, que faltou aos seus próprios filhos.

Bem... Mas nem tudo está perdido, o exemplo de Zumbi se multiplica mundo afora mesmo nos dias de hoje: O que vou relatar agora aconteceu no regime de Apartheid... Em Johannesburgo, África do Sul, em um voo da British Airways entre Johannesburgo e Londres.
Uma mulher branca, de aproximadamente 50 anos, chegou ao seu lugar na classe econômica e viu que estava ao lado de um passageiro negro.
Visivelmente perturbada, chamou a comissária de bordo.
"Qual o problema, senhora"? Perguntou a comissária.
"Não está vendo? - respondeu a senhora - "vocês me colocaram ao lado de um negro.  Não posso ficar aqui.  “Você precisa me dar outra cadeira”.
"Por favor, acalme-se - disse a aeromoça - “infelizmente, todos os lugares estão ocupados”.  Porém, vou ver se ainda temos algum disponível".
A comissária se afasta e volta alguns minutos depois.
“Senhora, como eu disse, não há nenhum outro lugar livre na classe econômica”.  Falei com o comandante e ele confirmou que não temos mais nenhum lugar nem mesmo na classe econômica. “Temos apenas um lugar na primeira classe”.
E antes que a mulher fizesse algum comentário, a comissária continua:
"Veja, é incomum que a nossa companhia permita a um passageiro da classe econômica se assentar na primeira classe. Porém, tendo em vista as circunstâncias, o comandante pensa que seria escandaloso obrigar um passageiro a viajar ao lado de uma pessoa desagradável".
E, dirigindo-se ao senhor negro, a comissária prosseguiu:
"Portanto, senhor, caso queira, por favor, pegue a sua bagagem de mão, pois reservamos para o senhor um lugar na primeira classe..."
E todos os passageiros próximos, que, estupefatos, assistiam à cena, começaram a aplaudir, alguns de pé.

Na Grã Bretanha se ensina para as crianças tradicionalmente a história:
O gato, o galo e o ratinho...
Um ratinho vivia com sua mãe. Um dia saiu sozinho e quando voltou disse para ela: - Mãe, você não imagina os bichos estranhos que eu encontrei. Um era bonito e delicado, tinha um pelo muito macio, um rabo elegante e um bigode bonito bem maior do que o do papai... Já o outro era um monstro horrível. No alto da cabeça e debaixo do queixo tinha pedaços de carne crua que balançavam enquanto ele andava. De repente os lados do corpo dele se sacudiram e deu um grito apavorante. Fugi correndo bem na hora que ia conversar com o simpático...
- Ah, meu filho! Respondeu a mãe.
- Este seu monstro horrível era uma ave inofensiva; o outro era um gato que num segundo poderia ter te devorado.
Moral da história: o preconceito é algo que merece a nossa reflexão.
Esta é a razão de ser o dia 20 de novembro feriado em muitos municípios. Com a finalidade de propiciar a todos esta reflexão e um amplo debate sobre a importante questão. Zumbi, na verdade, lutou contra os interesses dos poderosos da sua época e hoje ele vive em todos os que lutam contra a escravidão capitalista e a exclusão social.

Bem, meus caros amigos e amigas professoras, mais uma vez quero agradecer a direção da Escola Ary Gomes pelo convite para dizer algumas palavras neste evento. Na verdade prefiro chamar este dia 20 de novembro de dia do orgulho negro por tudo o que este povo tem feito pelo Brasil sem ter recebido nada em troca, além de cada vez mais pobreza e humilhação. Está mais do que na hora de todos nós começarmos a mudar esta história.  Esta é a reflexão que tenho pra dividir com todos vocês. Obrigado!...

ARI CARLOS DA ROCHA é Sociólogo, pela USP, Professor e Diretor da UNEGRO (União dos Negros pela Igualdade) de Guarulhos.

Saiba mais sobre este autor, no site www.leguarulhos.com.br

(O texto publicado neste espaço é de responsabilidade e direito de seu autor e não precisa, exatamente, refletir a opinião deste site.)

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