Guarulhos já tem 450 anos!

Ari Carlos da Rocha


05.02.2011

   

Guarulhos já tem 450 anos!  Mas ainda não conseguiu desenvolver justiça social, cidadania, respeito à natureza e às diferenças que são bens sociais que se constroem passo a passo e através do ensino de qualidade nas escolas públicas. 

É até comum, nas cidades grandes, um jovem e um computador serem ingredientes da alienação mais comum nos dias de hoje onde se troca relacionamentos “olho no olho” pelos da virtualidade.  As novas idéias na “Net” de nada valerão se não estiverem conectadas com a nossa realidade. O moderno e o antigo precisam conviver em harmonia, quando isto acontece começa a surgir dentro do cidadão os conceitos de respeito ao idoso, o respeito à fragilidade do verde em meio ao concreto, ou seja, o diferente precisa existir para dar origem à criatividade, diminuir a violência urbana e amenizar o estresse. 

   

Enfim comemoramos os 450 anos.  Alguns de nós chegarão a comemorar os 500 anos de Guarulhos. 

Durante este 2011 é tempo de fazer uma grande festa homenageando a nossa dinâmica cidade, na qual surge a todo momento grandes empreendimentos imobiliários, e com eles mais carros, eleitores, consumidores e outras culturas.

Os problemas urbanos não precisam se complicar com a chegada de mais moradores.  A utopia de uma cidade para todos só acontece se houver envolvimento efetivo de todos nós: a imprensa, os intelectuais, os poderes públicos, comerciantes, industriais, todos empenhados com a busca de soluções e assumindo as rédeas do desenvolvimento da cidade, ajudando a combater a pobreza e viabilizando os caminhos para a participação de todos nos frutos do desenvolvimento econômico da cidade.

   

A utopia acontece quando o nosso meio ambiente urbano está se desenvolvendo ecologicamente equilibrado com o aumento das áreas verdes de acordo com a organização mundial da saúde.  Compreender que saúde pública e bem-estar têm tudo a ver com saneamento básico e educação de qualidade que ensine a respeitar respeitando o patrimônio historicamente construído, ou seja, é preciso evitar que o passado de nossa cidade seja engolido pela sanha do poder econômico.  Qualidade de vida compatível com o desenvolvimento econômico do município é diretriz básica que prevê inclusive medidas legais que preservem além da fragilidade do verde junto ao cinza e ao concreto, também a fragilidade das nossas vilas e casarões em face da especulação imobiliária. 

O poder econômico não pode vir tudo comprando e tudo substituindo, colocando por terra monumentos importantes da nossa história.  Guarulhos é uma cidade conhecida no mundo inteiro e é de suma importância preservar a natureza de épocas passadas. 

O que sobrou do trem da Cantareira?  Muito pouca coisa.  E do casarão dos Sarraceni?  Nada sobrou!...  Na Vila Galvão, os mais velhos se lembram, que por muitos anos a população pegou água em uma antiga fonte com cabeça de leão que existia ali perto do restaurante Minhoto.  De uma hora para outra a prefeitura da época “em nome do progresso” simplesmente martelou tudo reduzindo a pó décadas de lembranças.  

   

É preciso tratar com respeito o patrimônio histórico da nossa cidade.  Destruir é muito fácil, qualquer um mal intencionado faz isto.  Reconstruir o que tem valor é histórico é impossível.  

   

Não se pode permitir que Guarulhos perca este ar de cidade interiorana que tantos visitantes elogiam.  O patrimônio histórico e cultural não pode ser engolido pelo gargalo insensível das transformações econômicas.  A demolição do casarão dos Sarraceni foi só um aviso à população. Se ninguém reclamar, em pouco tempo, nossa cidade estará irreconhecível. 

 

ARI CARLOS DA ROCHA é Sociólogo, pela USP, Professor e Ecologista em Guarulhos.

Saiba mais sobre este autor, no site www.leguarulhos.com.br

 

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